As Quatro Nobres Verdades

Escrito Por: Maos de Arte Publicado em: ROOT Data de Criação: 22/02/2021 Acessos: 25 Comentários: 0

Ao ilu­mi­nar-se, o Buda Shakyamuni viu que o uni­ver­so dos fenô­me­nos fun­cio­na de acordo com a ver­da­de da Gêne­se Con­di­cio­na­da. Quando deci­diu ensi­nar o que tinha vis­to, o Buda per­ce­beu que a Gênese Condicionada seria de difí­cil com­preen­são e pode­ria até gerar medo se fosse expli­ca­da de pron­to. Por isso, em vez de começar pela Gênese Condicionada, o Buda ensinou primei­ro as Quatro Nobres Verdades. O primeiro perío­do dos ensi­na­men­tos do Buda é cha­ma­do “Primeiro Giro da Roda do Darma”.

As Quatro Nobres Verdades não dife­rem da ver­da­de da Gênese Condicionada e, por certo, não a con­tra­di­zem. Elas sim­ples­men­te diri­gem o foco da Gênese Condicionada para a vida huma­na, fazen­do com que esta pare­ça mais rele­van­te para as pes­soas e fique mais fácil de enten­der.

 

As Quatro Nobres Verdades são:

 

  •  ver­da­de do sofri­men­to;
  • ver­da­de da ori­gem do sofri­men­to;
  • ver­da­de da ces­sa­ção do sofri­men­to;
  • ver­da­de do cami­nho que leva à ces­sa­ção do sofri­men­to.

 

A pala­vra “sofri­men­to” nesse con­tex­to é a tra­du­ção con­sa­gra­da do sânscri­to dukkha, cujo significado mais aproxi­mado seria o de “insa­tis­fa­ção”.

 

 

Significado Profundo das Quatro Nobres Verdades

 

O uso da pala­vra “ver­da­de” nas “Quatro Nobres Verdades” é expli­ca­da da seguin­te manei­ra no Shastra Yogachara-bhumi (Tratado sobre os Estágios da Prática da Ioga): “Da ver­da­de do sofri­men­to à ver­da­de do cami­nho que leva à ces­sa­ção do sofrimen­to, não há nada que seja falso ou enga­no­so e, por­tan­to, tudo isso é con­si­de­ra­do ‘verdadeiro’”.

 

O mesmo livro expli­ca a pala­vra “nobre”, nas “Quatro Nobres Verdades” deste modo: “Somente os nobres con­se­guem com­preen­der essas ver­da­des e con­tem­plá-las. Os ignoran­tes não conseguem com­preen­dê-las ou contemplá-las. Portanto, essas ver­da­des são cha­ma­das ‘Nobres’ Verdades”.

 

Comentário sobre o Tratado da Visão do Meio diz: “As Quatro Nobres Verdades são o ponto de passagem entre a ilu­são e a ilu­mi­na­ção. Quan­do elas não são com­preen­di­das, persis­te o apego aos Seis Reinos. Se com­preen­di­das, alcan­ça-se a san­ti­da­de”.

 

 De acor­do com o Sutra dos Ensinamentos Legados pelo Buda: “A Lua pode se aque­cer e o Sol ­esfriar, mas as Quatro Nobres Verdades nunca mudarão”.

 

As Quatro Nobres Verdades estão no cerne da vida. Explicam todos os esta­dos de consciên­cia exis­ten­tes no uni­ver­so e ensi­nam como se liber­tar de todas as for­mas de ilusão.

 

É neces­sá­rio sabe­do­ria para com­preen­der as Quatro Nobres Verdades. A pri­mei­ra verdade diz que a vida é cheia de sofri­men­to. A segun­da, que o sofri­men­to é cau­sa­do por nosso apego à ilu­são. A ter­cei­ra ver­da­de diz que a ilu­mi­na­ção, ou a total liber­ta­ção do sofrimento, é pos­sí­vel. A últi­ma diz como alcan­çar a ilu­mi­na­ção.

 

As duas pri­mei­ras Nobres Verdades têm rela­ção de causa e efei­to entre si. A primei­ra é o efei­to; a segun­da é a causa. Igual rela­ção exis­te entre a tercei­ra e a quar­ta, sendo a ter­cei­ra o efei­to cau­sa­do pela quar­ta.

 

À pri­mei­ra vista, cabe per­gun­tar por que o Buda colo­cou as Quatro Nobres Verdades nessa ordem. Não pare­ce­ria mais lógi­co que a segun­da e a quar­ta ver­da­des, ambas cau­sas, vies­sem antes da pri­mei­ra e da ter­cei­ra, que são os efei­tos? Ainda que em ordem dife­ren­te, as Quatro Nobres Verdades con­ti­nua­riam sendo com­preen­sí­veis. Contudo, a sequên­cia esco­lhi­da pelo Buda per­mi­te que as ver­da­des sejam ensi­na­das da forma mais efi­caz possível.

 

Para a maio­ria das pes­soas, é mais fácil enten­der pri­mei­ro o efei­to, –depois sua causa. Por isso, o Buda apre­sen­tou pri­mei­ro a ver­da­de do sofrimento e ­depois expli­cou a causa do sofri­men­to. Assim que se compreendem as duas pri­mei­ras Nobres Verdades, é natu­ral que­rer se liber­tar delas. Para aju­dar-nos a enten­der como alcan­çar essa liber­ta­ção, o Buda ensinou a Terceira Nobre Verdade, que é a ces­sa­ção do sofri­men­to, e por fim a Quarta Nobre Verdade, que é o cami­nho para a ces­sa­ção do sofri­men­to.

 

O Buda come­çou por des­cre­ver o pro­ble­ma, ­depois expli­cou sua causa. Em seguida, contou a solu­ção do pro­ble­ma e ensi­nou como che­gar à solu­ção. Um ele­men­to fundamental dos ensi­na­men­tos do Buda é a imen­sa com­pai­xão que trans­pa­re­ce na elaboração de expli­ca­ções, fei­tas de modo a serem compreen­di­das por qual­quer pes­soa que real­men­te se empe­nhe. A Gênese Condicionada e as Quatro Nobres Verdades são verda­des muito pro­fun­das. Aquele que as estu­dar lon­ga­men­te vai perceber quão inteligente e quão compassivo foi o Buda, ao con­se­guir expli­cá-las de forma tão clara.

 

 

A Primeira Nobre Verdade

 

A Primeira Nobre Verdade é a ver­da­de do sofri­men­to. O Buda viu com per­fei­ta cla­re­za algo que as pes­soas vis­lum­bram oca­sio­nal­men­te: não é possível ao ser huma­no con­quis­tar total satis­fa­ção neste mundo. O sofri­men­to é des­cri­to de mui­tas for­mas diferentes nos sutras budis­tas. As três fundamentais serão abor­da­das nos pará­gra­fos a seguir, deven­do-se obser­var que as clas­si­fi­ca­ções de sofri­men­to apre­sen­ta­das não são quali­ta­ti­va­men­te diferen­tes, mas ape­nas for­mas dife­ren­tes de abor­dar um mesmo problema.

 

 

Os dois sofri­men­tos

 

Os “dois sofri­men­tos” são o inter­no e o exter­no, sendo esta a classificação mais elementar encon­tra­da nos ­sutras budis­tas. Essa é a manei­ra mais bási­ca de com­preen­der o sofrimento. Sofrimentos inter­nos são aque­les que geral­men­te con­si­de­ra­mos parte de nós, como dor físi­ca, ansie­da­de, medo, ciúme, sus­pei­ta, raiva e assim por dian­te. Sofrimentos exter­nos são aque­les que pare­cem vir de fora, incluin­do vento, chuva, frio, calor, seca, ani­mais selvagens, catás­tro­fes natu­rais, guer­ras, cri­mes e assim por dian­te. Não é possí­vel evi­tar – nenhum dos dois tipos.

 

 

Os três sofri­men­tos

 

Esta é uma clas­si­fi­ca­ção basea­da mais na qua­li­da­de do sofri­men­to do que em sua ori­gem ou tipo. O pri­mei­ro dos três sofri­men­tos é o ine­ren­te, aquele a que esta­mos sujeitos pelo sim­ples fato de estar­mos vivos. O segun­do é o sofri­men­to laten­te, aque­le que está presente mesmo nos momen­tos mais feli­zes: coi­sas se que­bram, pes­soas morrem, tudo enve­lhe­ce e se dete­rio­ra, até os melho­res momen­tos che­gam ao fim. O tercei­ro sofrimento é o ativo, causa­do por estar­mos pre­sos em um mundo de ilu­são constantemente mutável. No mundo da ilu­são, temos pouco ou ­nenhum con­tro­le sobre nossa vida. Sentimos ansieda­de, medo e impo­tên­cia à medi­da que vemos tudo se transforman­do de um dia para o outro.

 

 

Os oito sofri­men­tos

 

Os oitosofri­men­tos des­cre­vem de modo mais deta­lha­do o sofri­men­to a que estão sujei­tos todos os seres sen­cien­tes e são clas­si­fi­ca­dos com base naqui­lo que os defi­ne. São eles:

 

Nascimento. Após ­vários meses de peri­go den­tro do ven­tre da mãe, final­men­te, sentimos a dor e o medo do nas­ci­men­to. Depois disso, tudo pode acon­te­cer. Somos como prisioneiros do corpo e do mundo onde nas­ce­mos.

 

Envelhecimento. Se formos, suficientemente, afortunados para não sermos mortos na juven­tu­de, tere­mos de enfren­tar o pro­ces­so de envelhecimen­to, ­sofrer a dete­rio­ra­ção do corpo e da mente enquanto assistimos o desa­pa­re­ci­men­to de nos­sos ami­gos, um por um.

 

Doença. A saúde é um pra­zer por ser tão con­tras­tan­te com a doen­ça. Todos, em algum momen­to, ­sofrem a dor e a humilhação da doença.

 

Morte. Mesmo que a vida seja con­si­de­ra­da per­fei­ta,a morte é ine­vi­tá­vel.A morte, quando não é repen­ti­na e ater­ra­do­ra, é geral­men­te lenta e dolo­ro­sa. Somos como folhas ao vento. Ninguém sabe o dia de ama­nhã.

 

Perda de um amor. Às vezes, per­de­mos ­alguém que ama­mos; ­outras vezes, nosso amor não é retri­buí­do. Não exis­te quem não sofra por não poder estar sem­pre com aqueles que ama.

 

Ser odia­do. Ninguém quer ini­mi­gos; entre­tan­to, é difí­cil evitá-los neste mundo.

 

Desejo não rea­li­za­do. Nossos anseios e dese­jos deter­mi­nam em gran­de medi­da quem somos. Limitam nossa capa­ci­da­de de enten­der o Darma, além de nos causar infin­dá­veis pro­ble­mas. E, o que é pior, a maio­ria deles – jamais chega a ser satisfeita, causan­do-nos duas vezes mais pro­ble­mas.

 

Os Cinco Skandhas. Estes são: forma, sen­sa­ção, per­cep­ção, ati­vi­da­de e consciência. Eles cons­ti­tuem os “tijo­los” da exis­tên­cia cons­cien­te e o meio para a manifesta­ção do sofri­men­to. Os Cinco Skandhas são como uma fonte ilimi­ta­da de combus­tí­vel a gerar dor e sofri­men­to, vida após vida.

 

 

Causas fun­da­men­tais do sofri­men­to 

 

Nos pará­gra­fos ante­rio­res, mos­tra­mos como os budis­tas veem a vida huma­na atola­da no sofri­men­to. Nos seguin­tes, o tópi­co sofrimento será analisado com mais pro­fun­di­da­de, pelo delineamen­to de algu­mas de suas causas fun­da­men­tais:

 

O Eu não está em perfeita harmonia com o mundo material. É necessá­rio esfor­ço cons­tan­te para encon­trar­mos con­for­to neste mundo. O clima é sem­pre quen­te ­demais ou frio ­demais, nos­sas pos­ses exi­gem cui­da­do cons­tan­te, nossa casa é muito velha ou muito peque­na, as ruas são muito baru­lhen­tas, os sapa­tos se gas­tam e assim por dian­te. O mundo mate­rial raramen­te se apre­sen­ta da forma como gos­ta­ría­mos que fosse.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com as ­outras pes­soas. Na maio­ria das vezes, não pode­mos estar na com­pa­nhia daque­les com quem gostaría­mos de estar, mas somos obri­ga­dos a supor­tar a presença de pes­soas com as quais temos difi­cul­da­de de relacionamen­to. Não raro somos até mesmo for­ça­dos a conviver com pessoas que aber­ta­men­te não gos­tam de nós.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com o corpo. O corpo nasce, enve­lhe­ce, adoe­ce e morre. O “eu” tem pouco ou ­nenhum con­tro­le sobre esse pro­ces­so.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com a mente. Nossa mente está fre­quen­te­men­te além do nosso con­tro­le, dis­pa­ran­do de uma ideia para outra como um cava­lo sel­va­gem ao vento. A ati­vi­da­de men­tal ilu­di­da é a fonte de todo o nosso sofrimento.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com os seus dese­jos. O “eu” pode com­preen­der que os dese­jos geram carma e sofrimento, mas isso não sig­ni­fi­ca que seja capaz de con­tro­lá-los com faci­li­da­de. O autocon­tro­le é difí­cil jus­ta­men­te por­que o que que­re­mos com mais inten­si­da­de nem sempre é o que sabe­mos ser o ­melhor para nós. Se nem mesmo ten­tar­mos con­tro­lar nossos dese­jos e dei­xar­mos que eles tomem conta de nós, o “eu” sofre­rá ainda mais.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com as suas opi­niões. Basicamente, isso sig­ni­fi­ca que nos­sas opi­niões são erra­das. Quando nos­sas cren­ças não estão ali­nha­das com a ver­da­de, cau­sa­mos a nós pró­prios infindáveis pro­ble­mas, pois teremos a ten­dên­cia de repe­tir os mes­mos erros mui­tas vezes.

 

O Eu não está em per­fei­ta har­mo­nia com a natu­re­za. Chuva, enchentes, secas, tem­pes­ta­des, mare­mo­tos e todas as ­outras for­ças da natureza não estão sob nosso con­tro­le e podem, frequentemente, nos fazer sofrer.

 

O Buda ensi­nou a ver­da­de do sofri­men­to não para nos fazer deses­pe­rar, mas para nos ajudar a reco­nhe­cer com cla­re­za as rea­li­da­des da vida. Compreendendo o alcan­ce do sofrimen­to e a impos­si­bi­li­da­de de evitá-lo, devemos nos sen­tir ins­pi­ra­dos a supe­rá-lo. Reconhecer a Primeira Nobre Verdade é o pri­mei­ro passo de um pro­ces­so que deve nos levar a que­rer compreen­der a Segunda Nobre Verdade.

 

 

A Segunda Nobre Verdade

 

A Segunda Nobre Verdade é a ver­da­de da ori­gem do sofri­men­to, que está na cobiça, na raiva e na igno­rân­cia. Os seres sen­cien­tes acor­ren­tam-se ao penoso e ilusivo mundo dos fenômenos, por causa de seu forte apego a essas fon­tes de ilusão, tam­bém conheci­das como os Três Venenos.

 

 

A Terceira Nobre Verdade

 

A Terceira Nobre Verdade é a ver­da­de da ces­sa­ção do sofri­men­to. “Cessação do sofrimen­to” é o mesmo que nir­va­na, um est

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